Aos 17 anos, Maria Odete decidiu fazer o supletivo até a 8ª série. Dois anos depois ela se casou e se mudou para o interior, onde passou a trabalhar na colheita de algodão e amendoim. O relacionamento acabou três anos e meio depois, por causa de ciúmes, e a mulher voltou para São Paulo para voltar a ser empregada.
Anos depois ela conheceu o atual marido e teve os filhos – Mayara, com atualmente 17 anos, e Júnior, com 15. Uma enchente destruiu tudo o que eles tinham em casa, e a então patroa os ajudou emprestando um apartamento e dinheiro para a reforma.
“Ela pagava as contas, não precisei me preocupar com nada. Ela foi uma mãezona, a mãe que eu não tive. Ela pegou minha roupa toda cheia de lama, lavou tudo para mim, me ajudou a lavar a enchente. Eu trabalhava para pagar. Ela ia descontando o valor”, lembra.
Já de volta à casa da família, Maria Odete se viu incomodada. “Um dia eu acordei de manhã, meu filho queria pão. Eu não tinha dinheiro para comprar pão. Minha tia [com quem morou na infância] me deu R$ 10. Eu pensei bem e decidi comprar bala, pirulito e chiclete. Peguei um caixote, de uma tampa de guarda-roupa que eu perdi na enchente, forrei e comecei a vender meus docinhos. Fazia isso à tarde, na porta de casa, depois de chegar do trabalho.”
A mulher viu que a ideia funcionava e passou também a vender espetinhos. O dinheiro continuava no limite da necessidade. A vendedora de churros conta que um dia conseguiu juntar uma quantia para comprar pastel, mas acabou desistindo ao ser abordada por uma criança com fome.
“Ele era mais carinho e bem gostoso. Eu estava toda animada, peguei o dinheirinho pensando ‘hoje vou levar meu pastelzinho, uma delícia’. Mas aí um menino me abordou porque queria comida, uma bolacha recheada. Aí dei o dinheiro para ele. Fui com ele comprar uma bolacha para ele no mercado. Fiquei sem meu dinheiro, mas achei melhor dar para ele do que para mim. Pensei: ‘depois eu como’. Mas não comi até hoje”, ri.
Maria Odete diz não se lembrar de passar fome, mas afirma que a tia costuma contar algo diferente. “Ela fala que, quando eu era pequenininha, não tinha comida para me dar. Aí ela fazia uma chupetas com açúcar ou rapadura e farinha e punha na minha boca, para eu parar de chorar.”
A vendedora de churros, que já precisou esperar dois meses para juntar dinheiro suficiente para comprar um livro de menos de R$ 100 para a faculdade, afirma ter orgulho da própria trajetória.
“Acho que a gente trabalhando a gente vence. E é o que quero deixar para os meus filhos, que você só vence com luta. Sempre falo para eles que a mãe não pode deixar nada para eles, só o conhecimento, o estudo. Isso ninguém pode roubar deles. Não quero que eles passem o que eu passei. Estudo é a única herança que consigo deixar para eles, nem se alguém puser uma arma na cabeça deles consegue roubar isso”, conclui.
Vinda para Brasília e escolha do curso
Maria Odete morava com o marido e os filhos em São Paulo, mas decidiu se mudar para a capital federal em busca de tratamento médico para o caçula, que tinha problemas para respirar e precisava viver em um lugar com menos poluição. A mulher viu na mudança uma oportunidade de romper com a rotina de empregada doméstica e deixar para trás todas as limitações da vida “sem nada além de arroz e feijão” que a família levava.
Maria Odete morava com o marido e os filhos em São Paulo, mas decidiu se mudar para a capital federal em busca de tratamento médico para o caçula, que tinha problemas para respirar e precisava viver em um lugar com menos poluição. A mulher viu na mudança uma oportunidade de romper com a rotina de empregada doméstica e deixar para trás todas as limitações da vida “sem nada além de arroz e feijão” que a família levava.
Ela passou então a viver com a família na casa do irmão mais novo, em Vicente Pires – a 20 quilômetros do local onde trabalha. O único quarto, que a obriga a dividir a cama com a filha mais velha enquanto o marido e o filho dormem no chão, virou sinônimo de conquista e estímulo. Maria Odete passou a vender calçados na loja do irmão na rodoviária. Uma colega deu então a ideia de aprender a fazer os doces, que ela abraçou sem ressalvas.
“Ela [a colega] me levou, me ensinou a fazer a massa. Foi assim”, lembra sorrindo. “Desde então eu acordo às 5h40 para preparar as coisas e trabalho de domingo a domingo, de 8h às 20h. Sou cheia de calos e queimaduras, aqui não tem espaço para mão lisinha. E sou muito feliz. Aos poucos, dentro do que alcanço com meus passos, tenho conseguido alcançar tudo.”
No contato com os clientes, Maria Odete imaginou como seria se tivesse curso superior.
No contato com os clientes, Maria Odete imaginou como seria se tivesse curso superior.
epois de conciliar o trabalho com as aulas do Ensino para Jovens e Adultos (EJA), ela entrou para uma faculdade particular de direito na Asa Sul aos 41 anos. As atividades aconteciam pela manhã. A mulher já apresentou o TCC, sobre as dificuldades do governo em lidar com invasões de áreas de proteção permanente, e atualmente refaz quatro matérias.
“Eu escolhi esse curso pela minha idade, já estava em uma idade avançada, e o campo de direito é amplo. Para trabalho, quero passar em concurso público. Penso em ser promotora de Justiça. Quero fiscalizar leis. Quero ser uma fiscal das leis. Quero ajudar um pouco as outras pessoas”, explica.
Fonte: G1

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